VIVER

Às vezes a vida não é mais do que um sopro que nos anima por um determinado período de tempo, mas passamos por ela sem realmente a aceitarmos por inteiro ou sem a compreendermos. Passamos pela vida sem termos descoberto o que é viver, e a nossa passagem acaba por ser tão rápida que nada deixamos para trás quando finalmente partimos, amargurados e ressentidos contra algo que nem sequer sabemos bem o que é.
Outras vezes, não somos nós que nos impomos à vida, mas o contrário. A vida invade-nos e não é um sopro mas um verdadeiro furacão que nos dirige. Sorvemos esse ar a longos tragos, absorvemo-lo em todos os nossos poros e abraçamos a vida e fundimo-nos com ela. E é assim que choramos, rimos, amamos, sofremos, sonhamos e lutamos com toda a intensidade. E tudo é importante: todas as sensações, todas as palavras, todos os desafios.
Talvez possamos dizer que o furacão da vida nos acontece desde o nascimento até à adolescência. Tudo desperta curiosidade, todos os sentimentos são avassaladores, todos os sonhos se podem realizar, não há impossíveis. Pouco a pouco, à medida que crescemos, o furacão vai perdendo a sua força até se transformar apenas num sopro, uma leve aragem, e aí ficamos apáticos, deixamos de acreditar nos nossos sonhos, passamos a esconder o que sentimos e a fecharmo-nos cada vez mais, até já não conseguirmos abrir-nos mesmo connosco próprios.
E porquê?
Não sei...
Talvez porque a vida nos tenha trazido de uma só vez agruras tão difíceis que agora só nos queiremos proteger, criar uma espécie de concha dura à nossa volta para que não penetre aí nenhum sofrimento.
Mas isso implica também não sonhar e não lutar pelos nossos sonhos, pois isso significa arriscar e podemo-nos magoar. Implica não mostrar aos outros o que sentimos pois os nossos sentimentos podem não ser correspondidos e sermos magoados. Implica não amarmos por medo de perder quem amamos. Implica não reflectirmos muito sobre os nossos problemas para não sentirmos.
E assim temos uma concha dura e oca, oca de sentido e de sentimentos. Para não nos magoarmos isolamo-nos e ficamos cada vez mais sós, cada vez mais apáticos, cada vez mais indiferentes à vida. Agimos mecanicamente, rotineiramente, e não encontramos alegria de viver em nada. E não, não somos fortes, somos incapazes. Incapazes de chorar todas as lágrimas e de fazer o nosso luto para seguir em frente. Incapazes de perceber que a tristeza, a perda e o sofrimento fazem parte do furacão que é a vida, desse arrebatamento que é viver, e que ao negá-lo negamos a própria vida.
Fala-se muito de Responsabilidade, e isso leva-me a colocar estas questões:
- Será a responsabilidade sinónimo de repressão emocional?
- Ser responsável significará parar de sonhar?
- Responsabilidade e liberdade não devem andar de mãos dadas, ou seja, não poderemos ser livres exercendo a nossa responsabilidade?
E, já agora:
- Aceitarmo-nos, conhecermo-nos, ouvirmo-nos e lutarmos pelos nossos sonhos respeitando o Outro não será uma premissa para a nossa concepção de seres humanos livres e responsáveis? E, se seguirmos essa premissa, não significará que somos felizes e que saboreamos esse furacão que é a VIDA??



0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home